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15 de dezembro de 2014

Aprender alemão com professores não-nativos: prós e contras

Vejo muita gente falando "aprenda alemão com um nativo". Como sou professor de alemão, alemão não é minha língua nativa e tenho um blog de língua alemã, resolvi ser sincero e confrontar aqui as vantagens de se aprender um idioma com um falante nativo e com um alguém não-nativo.

Lembrem-se: eu não acredito que línguas se aprendam em cursos ou em aulas particulares. Línguas se aprendem no momento em que você sai do curso ou da aula particular para aplicar o que viu na aula. MAAAAS a aula é uma ferramenta no aprendizado. A aula pode ser um lugar para tirar dúvidas, (talvez a única chance ao vivo para) praticar a língua com outras pessoas, para se forçar a estudar (muita gente só estuda quando tem aquele compromisso com um curso/professor), para conhecer pessoas (tenho alunos que se tornaram um casal durante o curso de alemão), para aprender coisas que não estão nos livros (vale especialmente para os autodidatas) etc. Ou seja, as aulas são uma ferramenta para o aprendizado, mas o aprendizado EM SI, na minha opinião, ocorre fora de sala de aula. Dito isto, vamos para os comentários:

1) Nem todo falante nativo é professor(a)
Isso parece meio óbvio, mas não custa nada reforçar. Saber falar um idioma não quer dizer que a pessoa saiba dar aula de línguas. Ou será que todo falante de português é professor de português? Isso não impede que falantes sem experiência didática se ofereçam pra dar aulas (ou pra ajudar) as pessoas a aprenderem seu idioma nativo. Isso é normal. Quando a pessoa está se oferecendo para fazer um intercâmbio linguístico (conhecido aqui como Tandem), ou seja, ela te ajuda com alemão enquanto você a ajuda com português, tudo bem. Ninguém precisa ser professor pra oferecer ajuda, além disso, é geralmente de forma gratuita e ambos saem ganhando algo. Há também muito alemão que nunca deu aula na vida e começa a dar aula quando vai pro exterior. Bem, sobre isso, eu vou falar mais no ponto número 4. O importante é se lembrar de que, às vezes, um professor não-nativo formado conhece mais profundamente as regras da língua alemã do que um falante nativo que nunca estudou a fundo a sua língua. Então antes de menosprezar aquele que não tem alemão como língua nativa, analise o conjunto :-)

2) Você gosta do(a) professor(a)?
Em toda profissão há bons e maus profissionais. Isso vale também para os professores. Há professores que cativam seus alunos pelo jeito que ensinam e há outros que conseguem transformar qualquer assunto em tortura. Não adianta fazer aula com um falante nativo chato, com cara emburrada, com uma aula parada enquanto você adora a aula com seu/sua professor@ brasileir@ que sempre dá aquele show. O importante é GOSTAR d@ seu/sua professor@. Cada país tem suas tradições de aprendizagem e ensino. Na Alemanha o método de ensino é diferente. Os aprendizes alemães são bem mais independentes, mais autônomos. Com isso, aquele esforço enorme do professor de prender a atenção dos alunos nas aulas de línguas é um pouco desnecessário, pois os alemães que fazem cursos de língua na Alemanha quase sempre vão fazer os exercícios mesmo que a aula seja um porre. Então você pode dar o azar de fazer um curso de alemão na Alemanha que com alguém dá aula nesse estilo (bem no estilo Se vira!) e perder a motivação por achar a aula meio parada (diferenças culturais). Com isso, não estou dizendo que todo professor alemão faz uma aula parada. Com isso estou dizendo que se você gostar d@ seu/sua professor@, seja ele/ela nativ@ ou não, você vai aprender bem mais durante a aula do que com um@ professor@ de que você não gosta muito. Quero dizer também que o estilo de dar aula na Alemanha é bem diferente do do Brasil e isso talvez requeira uma certa adaptação. (Falo por experiência de quem já fez cursos de vários idiomas com professores alemães. O estilo de ensino é totalmente diferente.)

3) Falantes não-nativos têm uma pronúncia necessariamente ruim?
Um dos principais medos dos alunos é pegar uma pronúncia ruim de um@ professor@ que fala "com sotaque". Esse é um medo justificável. Infelizmente, assim como nem todo aprendiz é perfeccionista na pronúncia, nem tod@ professor@ não-nativ@ consegue soar como um falante nativo. Os alunos notam isso e criticam. E o pior: nos níveis iniciais é crucial ouvir e repetir os sons corretamente. Nesse ponto, os falantes nativos estão em vantagem.

Mas há uma exceção.
O português não tem ainda um dicionário oficial de pronúncia, ou seja, tanto o pernambucano que fala "bom Dia" quanto o carioca que fala "bom DJia" estão falando português corretamente. O alemão, diferentemente do português, tem uma pronúncia padrão, aceita como "correta" e ensinada nos livros didáticos. Essa pronúncia se assemelha bastante ao modo como se fala no Norte da Alemanha (já escrevi sobre Hochdeutsch aqui). Ou seja, se seu/sua professor@ vier do Sul da Alemanha, da Áustria, da Suíça é possível que a pronúncia dele/dela seja diferente daquela que você vai ouvir nos livros. Isso pode causar muita confusão. (E antes que digam: mas ele/ela é nativ@... Sim, mas os livros de alemão ensinam apenas a pronúncia padrão e é esta que se ensina nos cursos. Aqui no blog, todos os tópicos sobre pronúncia ensinam a pronúncia padrão, não-dialetal).
Além disso, há vários não-nativos que falam alemão sem sotaque. Quem disse que isso não é possível? Na faculdade fiz uma disciplina de Fonologia do Alemão com um professor não-nativo e foi excelente. Em todos estes anos na Alemanha já tive a felicidade de conhecer vários estrangeiros falando um alemão impecável. Além disso, a aula (como disse antes) deve ser apenas UMA ferramenta de aprendizado, mas não a única. O contato com os falantes nativos fora da aula pode tirar as dúvidas de pronúncia.

4) Seu/Sua professor@ tem experiência?
Esses dias li algo interessante: Quando um estudante se forma em Engenharia, ele é apenas um formado em Engenharia, ou seja, alguém que tem a formação necessária para exercer a profissão, mas para ocupar uma vaga de emprego, ele provavelmente necessitará ainda um período de treinamento naquilo que fará na empresa. Isso é normal. Professores de idiomas também vão aprimorando sua didática com o tempo. Eu comecei a dar aula de inglês com 16 anos. Naquela época eu me espelhava nos meus professores. Meu jeito de dar aula hoje está a anos-luz dessa época. Já são anos de experiência dando aula de alemão e português. Com o tempo, vamos acumulando materiais, as dúvidas dos alunos vão se repetindo e o professor ganha mais facilidade em ensinar. Na hora de escolher entre um nativo ou um não-nativo, verifique se você está trocando um não-nativo com 10 anos de experiência por um nativo sem experiência. E olha que aqui não estou falando de formação em Letras. Apesar de a minha formação em Letras ter sido bastante enriquecedora e eu perceber que muitos professores de línguas formados em outras áreas poderiam ainda ser melhores se tivessem uma base de teorias da Linguística e da Didática, a verdade (nua e crua) é que mesmo pessoas sem formação em Letras podem ser ótimos professores de língua. A mão na massa dá a experiência necessária. Uma formação teórica dá mais segurança para exercer a profissão.

P.S. Eu sou a favor da valorização do profissional formado em Letras. Mas afirmar que só formados em Letras são bons professores de idiomas vai contra a realidade que observo.

5) Qual é o seu nível no idioma?
Quanto mais alto o nível, na minha opinião, melhor @ professor@ nativ@. É que um falante nativo consegue expressar melhor as nuances da língua. Um nativo consegue usar mais expressões idiomáticas, conhece palavras muito específicas para dizer certas coisas, conhece uma série de ditados populares etc. Um estudante que quer chegar ao nível C2 de um idioma está interessado em se expressar de forma bem específica. Nos níveis iniciais, um professor que consiga (pelo menos) explicar as coisas em língua materna não é ruim. Não precisa dar a aula toda em português, mas dar uma ajudinha de vez em quando ou explicar a gramática na sua língua materna pode ser muito útil sim. Dito isto vem a pergunta: você quer dizer que um professor estrangeiro jamais será capaz de dar um curso do nível C1/C2? De forma alguma. Como falei antes, formação e experiência podem ser bastante determinantes. Bons professores não chegam para as aulas despreparados. Mesmo um professor não-nativo pode preparar uma aula maravilhosa de nível C1/C2. Se ele/ela for experiente, o aluno aprenderá tanto quanto com um nativo.
Dica: o Instituto Goethe oferece certificados de proficiência do nível C2. Se seu/sua professor@ não-nativ@ tiver um certificado do nível C2 e tiver experiência, não precisa ter medo, ele/ela será capaz de te ajudar a chegar ao nível mais alto de proficiência do idioma.

6) Existe alguma vantagem do professor não-nativo?
Sim, existe.
O professor que não tem alemão como língua nativa também teve que aprender alemão. Ou seja, ela passou por todos os processos de aprendizagem que um aluno vai passar. Ele teve que estudar as regras, memorizar vocabulário, manter contato com nativos etc. Ou seja, ele poderá dizer com bastante propriedade o que você deve fazer para aprender a língua. Ele saberá demonstrar mais empatia por suas dificuldades. É claro que sempre fica uma pulga atrás da orelha? Mas e se ele/ela também tiver internalizado erros durante esse aprendizado? E se ele/ela me ensinar algo errado? Se ele trocar um artigo durante a aula e eu aprender o artigo errado? É verdade... esse perigo é real, infelizmente.

Um falante nativo usa a língua de forma mais intuitiva, ou seja, as regras já estão internalizadas. Raramente um falante nativo de alemão vai errar um artigo ou cometer um erro grosseiro de declinação. Mas como falei, o que conta mais é a experiência no ensino. Alemães que já dão aula de alemão há muito tempo no Brasil já aprenderam quais as dificuldades comuns dos alunos brasileiros. Através da sua experiência e por ter alemão como língua nativa, ele está em maior vantagem em relação aos professores brasileiros que aprenderam alemão quando adultos. Além disso, o fato de ele/ela saber falar uma língua como nativo, não significa que esse conhecimento vai passar pra cabeça do aluno de forma automática. Para isso um@ professor@ precisa saber motivar, saber levar o aluno a aprender de forma autônoma, saber ouvir e tirar dúvidas etc. E essas características podem ser bem exercidas por qualquer bom/boa professor@.


Qual a garantia de que eu estou aprendendo alemão correto nesse blog?
Quando decidi fazer Letras no Brasil, já era um apaixonado por idiomas. Já dava aula de inglês (língua que tinha aprendido de forma autodidata e praticando com estrangeiros) em escolas da cidade, mas queria aprender outro idioma. Decidi então cursar uma Licenciatura em Letras com habilitação em português e alemão, um curso que (teoricamente) forma professores de português, alemão e suas respectivas literaturas. O curso não transforma uma pessoa em falante nativo de um idioma estrangeiro, mas te dá todas as ferramentas necessárias para você ser capaz de ensinar esse idioma para alguém depois de formado. A carga horária é bastante alta. Na UFC (onde estudei) o curso dura 5 anos. Em 5 anos, você faz oito cursos de 64 horas-aula cada de língua e cultura alemã bem como 4 cursos de literatura em língua alemã, além de disciplinas de fonologia, morfologia, sintaxe, produção de texto em língua alemã. Sem falar das disciplinas teóricas de ensino de língua alemã e do estágio supervisionado. Durante a faculdade ainda tive a sorte de conseguir uma bolsa de estudos para passar um ano na Universidade de Colônia cursando disciplinas e fazendo curso de alemão, tudo incluído no programa de intercâmbio universitário. Foi durante o intercâmbio que passei no DSH (é uma das provas de idioma aceitas para ingressar na faculdade na Alemanha). Depois disso, resolvi ainda fazer um mestrado na Alemanha em didática de língua estrangeira (mais especificamente no ensino de Alemão como Língua Estrangeira). Já moro na Alemanha há 7 anos e tenho contato com a a língua alemã desde 1999. Como toda esta formação, será que não estaria pronto pra dar aula de alemão? Pra muita gente não. Não tem problema. Se preferir ter aula com um nativo, tudo bem. Mas acho que me sinto preparado para ensinar alemão, sim. E muito bem, obrigado.

Eu tive excelentes professores de alemão do Brasil. Não deixaram em nada a desejar.

Moral da história:Aprender a língua de um nativo pode ser muito vantajoso, sim. Mas este nativo deve ter experiência no ensino (noções de didática, conhecimentos do métodos de ensino de alemão para estrangeiros), domínio da língua materna e ser uma pessoa agradável (ou seja, a aula desta pessoa te dá mais motivação para estudar). Se for um nativo com experiência de ensino, com certeza ele estará com mais vantagem do que os não-nativos. Caso seja um nativo sem experiência de ensino, prefira seus serviços para conversas mais informais (como num Tandem), mas não pague um valor alto pra alguém sem experiência apenas por ser nativo.
Um professor não-nativo tem que se esforçar duplamente para convencer o seu alunado de que é capaz. Isto se dá através da sua formação acadêmica, sua experência com o idioma, através de certificados de proficiência, de uma pronúncia clara etc. Caso você perceba que seu professor "se garante" no alemão, não tenha medo. O mais importante é que o aluno goste de ter aulas com aquele professor e faça progressos.

E você? Teve bons professores de alemão brasileiros/portugueses?

7 comentários:

  1. Poxa Fábio, um excelente tópico!
    Graças a Deus, sempre tive ótimo professores de alemão, sempre não nativos, mas que tinham um vasto conhecimento. O único ruim é que toda vez que eu os acho, passa um tempo eu os perco... pq eles são tão bons que vão para colégios alemães ou coisa parecida.
    Vc também é um excelente professor, sem dúvida! Quisera eu ter aulas com vc! Quantas vezes eu e os meus colegas não sanamos nossas dúvidas com seu blog.
    Espero um dia também ter a oportunidade de morar na Alemanha e falar fluente.
    Parabéns! Que vc tenha cada vez mais sucesso!

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  2. Eu comecei estudar alemão no Brasil e tive uma professora nativa que era muito boa. Agora aqui na Alemanha, estou tendo aula semanalmente com dois professores que são intercalados. Um não é nativo que tem uma didática péssima e não tem nenhum conhecimento por exemplo em inglês e só fala alemão. A outra é uma nativa que fala 4 idiomas (alemão, inglês, francês e espanhol) e ela é excelente!! Alguém que entende como as línguas latinas e anglo-saxônicas são formadas e por isso ela tem uma didática excelente. Como ainda estamos no básico, ajuda sim as vezes aquela palavrinha chave em inglês no meio da explicação em alemão p/ tudo fazer sentido. Portanto, acho indiferente a origem do professor e sim sua didática e interesse em fazer com que os alunos compreendam. Mas, como você disse, eu tb acho uma vantagem é ter alguém como professor que tem conhecimento sobre a morfologia das línguas. Em tempos, o seu blog tem sido uma ferramenta indispensável neste processo. Vielen Danke! :)

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  3. sera que seria de bom tom perguntar se alguém sabe indicar um professor no Brasil ou um site onde possamos encontrar um professor com uma boa didática.

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  4. obrigado pelo seu blog, estou em Hessen há 3 anos e desde o inicio que sigo o seu blog e não perco uma novidade, são sempre mto úteis as suas dicas.
    A minha professora favorita é russa e fala muito depressa e bem , eu entendo tudo que ela diz e a forma como explica , era minha professora na escola, mas lá tive outras prof.alemãs e eu não entendo nada do que dizem , eu ouço chinês e não alemão. Por isso desisti das aulas na escola e só tenho aulas privadas, que são muito caras mas vale a pena, estou no nível B1 e para o meu nível eu entendo mto bem os textos para B1, mas se ouço alemães a falar eu não entendo nada !!!!!

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  5. Infelizmente, so fiz um semestre de alemao, mas tive um professor excelente, na Casa de Cultura alema da UFC. Gostaria de ter estudado o curso inteiro, mas nao pude. Nem sei se havia algum alemao no curso de la, mas posso garantir que os brasileiros da Casa de Cultura fazem um excelente trabalho por la. :-)

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  6. Bom profissional é um bom profissional independentemente de ser nativo ou não. A única diferença que notei foi na questão do ensino aspectos culturais, o professor brasileiro tenta reduzir a cultura quotidiana do alemão a região na qual virei ou passou uma temporada, se esquecendo que padrões culturais são muito amplos. O alemão faz assim o alemão faz asado, situacoes que nao existem

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