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20 de novembro de 2014

Vida na Alemanha - Racismo na Alemanha

Para começar, aqui vão dois vídeos de um negro alemão onde ele relata perguntas idiotas que ele tem que ouvir:




Hoje é dia 20 de novembro. Dia da Consciência Negra. Um dia que tenta dar ao negro a consciência de sua negritude, a consciência do que a cor de pele representa atual e historicamente. Eu não sou negro. Não me identifico como negro, apesar de saber que, como brasileiro, deve haver muito sangue e muitos genes de origem africana em mim. Eu nasci com aquela cor de pele típica do brasileiro mestiço: nem tão branca, nem tão negra. Olhos e cabelos castanhos. O famoso "pardo" das estatísticas do IBGE. Eu tenho consciência de que não sou branco. E consciência de que não sou negro.

Por estar na parte do meio dos inúmeros tons de pele existentes, eu nunca passei pelas mesmas situações de racismo no Brasil que meus irmãos negros. Nem ganhei os privilégios de ter nascido branco numa família de classe média. Como nunca havia sofrido racismo, eu era mais um a não demonstrar nenhuma empatia pelo sofrimento do negro. Afinal, ninguém nunca havia me julgado pela minha cor de pele. Nunca.

Aí eu vim para a Alemanha. Sim, aquele país marcado eternamente por ter começado uma Guerra Mundial com uma política racista. O mais curioso é que a Alemanha foi destruída por um país que também tinha uma política racial segregacionista. Mas parece que ninguém vai pros EUA se perguntando sobre racismo. Mas todo mundo parece ter medo de encontrar alemães defendendo os ideais do seu ditador do passado.

A primeira vez que eu ganhei consciência de que a minha aparência chamava a atenção foi ao morar aqui. Foi na Alemanha a primeira vez que ouvi na vida: Você tem olhos bonitos! Essa frase, já ouvida várias vezes da boca de alemães, me deu consciência de que olhos castanhos podem ser bonitos. Numa terra em que boa parte da população tem olhos claros, ter olhos escuros é o diferencial. Eu tive a certeza de que jamais ouviria isso no Brasil, um país acostumado a idolatrar artistas brancos de olhos claros. Isso me deu consciência.

Numa outra ocasião ouvi de uma colega, alemã, branca "Nossa como eu queria ter a sua cor de pele". Respondi, atônito, "Sério? Por quê?". "Porque queria poder tomar sol, me bronzear, quando vou à praia fico vermelha, vocês se bronzeiam. É mais bonito". Essas e outras experiências me deram consciência de que em terras germânicas eu não passo despercebido como no Brasil. Aqui eu sou considerado "dunkelhäutig" (pele escura). E a minha pele chama a atenção.

Um dia aprendi que havia palavras tabu na Alemanha. Palavras que causam desconforto à maioria dos alemães. Todas elas são palavras que foram usadas e abusadas pela ditadura nazista. Uma delas é a palavra Rasse (raça). Hoje em dia a palavra Rasse só é usada quando se fala sobre o pedigree de animais, mas não mais sobre humanos. É claro que se pode dizer que uma pessoa é branca ou negra. O problema é chamar isso de "raça". Alemães não gostam desse termo. Também descobri que a palavra Neger, antigo termo para "negro" é considerado racista hoje em dia, preferindo-se o termo schwarz, ou até outros termos como Schwarzafrikaner, Schwarzafrikanerin, Afroamerikaner, Afroamerikanerin, Afrodeutscher, Afrodeutsche. O doce conhecido como Negerkuss (beijo do negro) passou a ser chamado de Schokokuss (beijo de chocolate). Imagine o que diriam os alemães se soubessem que no Brasil há um bolo de chocolate chamado "nega maluca".

Chances iguais?
Depois de fazer mestrado na Alemanha, acabei achando emprego numa universidade, ou seja, as pessoas com quem convivo diariamente são pessoas com um alto nível de educação. Meus alunos alemães se chocam um pouco quando sabem que o IBGE, um instituto nacional de estatística, ainda faz contagem de "raça" no Brasil. Ficam mais chocados quando aprendem os termos usados pelo IBGE "branco, pardo, negro, AMARELO(???), indígena". Mas não se enganem. Mais chocados ficam quando veem as estatísticas das diferenças de salário entre negros e brancos no Brasil. Mais chocados ficam quando vão ao Brasil e aprendem dos próprios brasileiros a se "protegerem" dos "negros" na rua, já que serão "ladrões" em potencial. Mais chocados ficam quando fazem um semestre de intercâmbio nas universidades públicas brasileiras e se perguntam: "Cadê os negros nesta universidade?". Sim, todos estes debates e comentários se repetem nas minhas aulas sobre o Brasil na universidade. Alguns vão pensar: Ah, vai dizer que na Alemanha não existe racismo? Mas minhas aulas não são sobre a Alemanha, e sim, sobre o Brasil. O importante, para mim, é levar os alunos a refletirem sobre as experiências que terão, que têm ou que tiveram no Brasil para que entendam melhor os processos históricos que levaram às diferenças raciais no Brasil.

Essa consciência eu não ganhei no Brasil. Eu ganhei aqui na Alemanha. Ganhei aqui pois aqui sou tratado diferente. Por ser tratado diferente, pude ganhar empatia pelas pessoas no Brasil que também são tratadas diferentemente. Já fui tratado de forma racista na Alemanha? Claro. Uma das formas mais comuns de racismo aqui é o racial profiling da polícia. Qualquer ladrão aqui é descrito como südländisch. E com südländisch eles já estão dizendo: deve ter vindo de algum país do Sul. E do Sul pode ser desde a Itália, da Grécia, da Turquia quanto de qualquer outro país onde faça mais sol do que aqui, que deixe a pele num tom mais escuro do que aqui. Sim, já fui parado pela polícia a caminho do trabalho apenas por ser südländisch. Sim, já fui a única pessoa do vagão inteiro de um trem a ter que mostrar documentos e abrir mala para a polícia enquanto as pessoas do vagão olhavam para mim (sem fazer nada). Dá raiva? Dá. Estraga o seu dia e o seu humor? Estraga. Mas passa. Sabe por quê? Porque eu talvez passe por isso 1-2 vezes por ano. Enquanto nos outros 363-364 dias do ano eu sou tratado como gente, sou tratado como o rapaz dos olhos bonitos, o brasileiro que com certeza anda sempre alegre, fazendo festa, sambando ou sei lá o quê. Mas esses dois dias por ano em que algo assim acontece me deram a vaga consciência do que um negro passa no Brasil ao ser revistado ao sair de um loja sem ter roubado nada. Ao ter o seu caráter julgado pela sua cor de pele. É por isso que, quando sei de algum brasileiro revoltadíssimo por ter sido barrado na porta de uma discoteca alemã, penso nos inúmeros casos de negros brasileiros que são barrados, revistados, expulsos de locais brasileiros (shopping centers, lojas, boates etc.) sem que ninguém se revolte. E eu espero que esse brasileiro barrado na entrada da discoteca ganhe essa consciência. Espero. Por isso, precisamos "brigar por justiça e por respeito", como diz Seu Jorge. Estamos juntos!

"A carne mais barata do mercado é a carne negra" - (Seu Jorge)

Leia os outros textos sobre Consciência Negra:
1) http://www.aprenderalemao.com/2014/11/negro-brasileiro-na-alemanha-haut-por.html
2) http://www.aprenderalemao.com/2014/11/negra-brasileira-na-alemanha-irmaos-de.html

Negra, brasileira, na Alemanha: Irmãos de cor na Alemanha por Cris Oliveira

Irmãos de cor na Alemanha
Cris Oliveira

Quando decidi vir pra Alemanha há mais ou menos 12 anos a coisa que mais me preocupava era como eu enfrentaria o racismo. Tinha certeza que quando chegasse aqui iria ter de passar por situações desagradáveis, só não sabia como elas se manifestariam e como me defenderia. Mas estava decidida a vir. Meu futuro marido estava aqui e me garantia que não precisava ter medo, que existia muito racismo aqui sim, mas que a gente se adapta, se fortalece, luta contra e aprende a viver com isso. No final das contas o amor falou mais alto e acabei vindo com medo e tudo.

Logo que cheguei, talvez por causa da minha expectativa anterior, me surpreendi. Andava meio na defensiva, com medo dos ataques que poderiam vir de qualquer lugar inesperado, mas com o passar do tempo fui percebendo que as situações desagradáveis para as quais eu me preparava tanto nunca vinham. Pelo contrário, comecei a notar que muitos dos alemães que eu encontrava por aí sabiam muito mais do Brasil, sem nunca terem ido lá, do que eu sabia da Alemanha apesar de já estar vivendo aqui. Percebi também que muitos tinham um interesse genuíno pelo Brasil, sua história e sua gente. Comecei a relaxar e perceber que os monstros que eu esperava encontrar aqui não andavam assim espalhados por toda parte e que essa terra estava passando por um processo de mudança impressionante, se tornando cada vez mais internacional, aberta e tolerante. 

Comecei a ver reconhecidas certas características minhas que no Brasil ou passavam despercebidas ou eram logo menosprezadas mesmo, como meus olhos escuros, a cor de minha pele e principalmente meu cabelo. Nunca fui chegada a chapinha ou alisamentos simplesmente porque me irritava ser dependente de qualquer coisa no meu dia a dia. Meus cabelos sempre foram mais pro natural por questão de praticidade mesmo, mas confesso que de vez em quando cedia a pressões da família (“menina, que cabelo doido, vai dar um jeito nisso”; era uma das coisas que eu ouvia das superbem intencionadas mulheres da minha família) e acabava dando um relaxamentozinho aqui outro ali. Aqui na Alemanha aprendi a gostar genuinamente de minha imagem no espelho, inclusive do meu cabelo “doido” e eu serei pra sempre agradecida a esse país por isso. 

Depois de ouvir incontáveis elogios a gente acaba se convencendo de que não há nada de errado com a gente e isso é maravilhoso. É um grande alívio quando percebemos que podemos escolher mudar alguma coisa em nossa aparência, mas não nos sentirmos forçados a mudar nada por uma mera questão de aceitação. Esse é o ponto: assim que cheguei a Bremen, eu como negra, me senti aceita e isso foi fundamental pra minha história aqui neste país.

Infelizmente a fase do namorinho apaixonado um dia chega ao fim em qualquer relação e a minha com a Alemanha não podia ser diferente. Passado o primeiro momento de encantamento, comecei a perceber que aqui as experiências de negriture variam muito e nem sempre as de outros negros com os quais eu convivi aqui foram assim tão positivas quanto as minhas. Prestando mais atenção e conhecendo mais pessoas, acabei notando que o racismo aqui se manifesta de forma muito complexa e em muitos momentos ele fica até difícil de identificar por ser confundido com outras coisas. Ou seja acaba parecendo muito com o que acontece no Brasil.

Hoje em dia, com o olhar mais crítico de quem já passou da fase de encantamento com o novo país, percebo que quanto mais escura a cor da pele maior o racismo enfrentado. A origem também é um fator importante. Todo mundo ama um negro latino, mas esse amor nem sempre se estende pros africanos. O preconceito aqui se manifesta, pelo menos pra mim, mulher brasileira, negra de pele não tão escura, de forma bem cordial. Eu entro em um lugar e as pessoas já esperam que eu seja a atração da festa. Todos acham que eu só vivo feliz. Que sei cantar, dançar, que sinto frio o tempo todo, que venho do morro, que sou supersensual e só penso naquilo. 

Na verdade, não me incomodo quando alguém tem essa imagem de mim. Essas só são primeiras impressões que podem ser descontruídas quando se conhece alguém melhor. O que incomoda mesmo é perceber que elas só têm uma imagem, e que essa imagem é tão reduzida e rígida que acaba me limitando também. É um saco ter sempre que conversar sobre essas mesmas coisas aí, simplesmente porque muita gente não entende que existe mulher negra brasileira que não sabe dançar, que não entende nada de futebol, que não acha o frio tão horrível assim e que não está o tempo todo tentando seduzir alguém.

Eu tenho a sorte de conviver com pessoas de mente mais aberta e reflexiva. Já passei por umas situações esquisitas, mas foram poucas. Enquanto isso tem gente que tem de lidar todos os dias com coisas muito piores como com o fato de sempre serem tratados como estrangeiros apesar de terem nascido aqui, com os olhares insistentes que ou desconfiam ou tem uma curiosidade invasiva e com as oportunidades de emprego mais escassas todos os dias. Esse é o racismo nu e cru dispensando qualquer cordialidade.

No meio de tudo isso a gente acaba reconhecendo nossos iguais. Pessoas, que como a gente sofre com as mesmas coisas e por isso entendem exatamente porque agimos como agimos. Por isso não é raro que caminhando pelas ruas de Bremen de vez em quando se encontre outros negros e negras que do nada se cumprimentam. Quando isso aconteceu comigo pela primeira vez, respondi a saudação, mas achei estranho. Sendo soteropolitana, se eu sair por aí saudando cada negro igual a mim que encontrar na rua, vou passar o dia inteiro só dizendo “oi”. Até que um dia uma negra, até meio parecida comigo, passou por mim e me cumprimentou de uma forma que me fez entender tudo. Ela sorriu e disse “Hi, sister”. O que pra ela foi somente um cumprimento, pra mim significou muito mais. Queria dizer estamos aqui nesse país cheio de pessoas diversas, mas existe algo em mim e em você que nos separa de muitos deles ao mesmo tempo que nos conecta com muitos outros de lugares que eu e você nem podemos imaginar. Eu vejo você e você me vê, mas pra ser visto muitas vezes é preciso passar por muita coisa e viajar pra muito longe. Desde então toda vez que encontro um outro preto ou preta por aí, não hesito em sorrir e dizer “oi irmão/oi irmã” e pensar comigo mesma “estamos aí. Estamos aqui”.

Leia os outros textos sobre Consciência Negra:
1) http://www.aprenderalemao.com/2014/11/negro-brasileiro-na-alemanha-haut-por.html
2) http://www.aprenderalemao.com/2014/11/vida-na-alemanha-racismo-na-alemanha.html

Negro, brasileiro, na Alemanha: Haut - por Maurício Virgens

HAUT

Essa semana como de praxe eu estava vendo o que meus amigos do facebook postavam... E me deparei com umas fotos de uma conhecida minha de lá da Bahia.... Bastante maquiada e "produzida" até o último fio de cabelo (alisado, por sinal!), eu notei porém que nos selfies a pele dela estava mais clara. Na verdade não era a primeira vez que eu havia notado isso. Na outra ocasião eu cheguei a comentar pessoalmente minhas observações, cheguei a dar uma dica pra ela de onde comprar uma base de acordo com nossa quantidade de melanina (maquiagem da mesma marca que eu uso quando estou trabalhando no palco). Masss... Ela se explicou... "Não... É que eu tenho uma doença de pele e daí eu uso uma base mais clara pra escondê-la..."

Doença de pele. Aham... 😒

Essa sensação de estar com uma doença de pele eu já tive algumas vezes na vida. Uma das primeiras e mais marcantes foi lá nos meus dezoito anos, quando um novo shopping pra classe alta estava sendo inaugurado em Salvador, o Shopping Barra. Eu e minha irmã nos candidatamos para trabalhar numa loja pra grã-finos chamada Chocolate. Alguns de vocês provavelmente não têm ideia do que significava a expressão "boa aparência" em um anúncio de jornal naquela época, mas... Como nós dois éramos conscientes de nossas belezas afrobrasileiras (tínhamos aqueles penteados de Grace Jones, roupas tipo negões de Nova Iorque... éramos até manequins... Era moda naquela época, não riam!)... Então fomos lá apresentar nossos currículos que também não deixavam nada a desejar para recém-graduados de escola particular.

Passamos pela seleção curricular, fizemos uma bateria de testes de matemática, de português, de contabilidade básica, físicos, psicológicos... Até que na última fase, a funcionária da empresa, não tendo mais nenhum argumento que pudesse embasar alguma falta de qualificação nossa pra ser vendedor de loja, nos disse finalmente que não nós tínhamos o perfil da empresa. Perguntamos que perfil era aquele... Ela olhou pra a nossa pele. Doentes de pele não satisfazem perfil de loja de grã-fino. Danke für den Hinweis!! 😳

Passaram-se alguns anos. Eu já estava cursando arquitetura na UFBA. E ocorreu de minha turma viajar para São Paulo, creio que para um congresso de arquitetura. Comprei minha passagem de avião parcelada em juros a perder de vista... Chegamos todos no aeroporto um pouco em cima da hora para pegar o vôo, que por estar lotado, fomos alocados na primeira classe (até hoje eu não entendi o porquê daquele upgrade gratuito...). Estávamos então todos eufóricos, nos sentindo ricos e famosos... Até quando a aeromoça, ou melhor (como se diz na primeira classe) a Stewardess começou a fazer a contagem dos passageiros, e ao me ver sentado ali naquela poltrona de couro, parou e fez uma expressão de? 😒... Isso mesmo! De quem está vendo alguém com uma doença de pele. 

Dito e feito. Ao fazer o serviço de bordo, me serviu por último(!!) e para arrematar o tratamento VIP, me deu um prato com comida estragada. Chamei-a: "Com licença, a comida está estragada, me traga uma outra, por favor!"... "É a última que temos, senhor!" - com um sorriso sarcástico... "Então pode levar de volta, obrigado!", respondi me sentindo o cocô do cavalo do bandido preto que nem apareceu no filme de cowboys caucasianos.

Se não são sadios de pele, que comam comida estragada! Parafraseando a frase atribuída erroneamente(!!) a Marie Antoinette "S'ils n'ont plus de pain, qu'ils mangent de la brioche!"


Eis que anos depois, tive aqui na Alemanha um déjà-vu.

Eu tinha um compromisso profissional em uma cidade a quase 4 horas de distância de Colônia, onde moro, e pra isso acordei bastante cedo. Só que por azar (ou por ansiedade) me levantei com aquela dorzinha de cabeça querendo começar... Botei então meus óculos escuros e passei numa farmácia antes de pegar meu transporte. Entrei na loja e me dirigi direto ao balcão quando percebi que uma das atendentes já me media dos pés à cabeça... Com aquele certo olhar de quem está vendo um? 😒... Isso mesmo!! Um doente de pele!

Pensei: "Curioso! É raro eu receber este tipo de olhar assim tão explícito aqui na Alemanha... Ela não se deu conta que eu apesar dos óculos escuros a estou vendo... Hmmm... É nela que eu vou comprar minha aspirina!". Dito e feito. Foi intrigante ver suas expressões faciais irem se mudando ao tempo em que me atendia e percebia meu nível de alemão, minhas "boas maneiras", minha carteira que (por coincidência ao contrário de outros dias!!!) estava relativamente gorda... Eu me senti como naqueles filmes de temática religiosa nos quais as feridas dos leprosos vão desaparecendo pelo toque de algum santo... Senti que minha pele se curou em dois minutinhos de atendimento.

Doença de pele se cura com domínio do alemão e boas maneiras? Será que foi isso? 

Pra lhes dizer a verdade, nesta altura de minha vida... Mir ist wurst! Pra mim tanto faz como tanto fez a resposta a essa pergunta... Eu me amo como eu sou. Eu amo ser preto. Amo minha pretitude, amo minha negritude, amo minha baianidade nagô. Me sinto muitíssimo confortável em minha própria pele... meu olhar sobre minha ancestralidade e minha cultura afrodescendente são extremamente saudáveis.

Sim, Mauricio... Mas dá pra ir ao ponto da questão, bitte? Danke!

Ok, Leute... Seguinte. Estou passando mais uma semana da consciência negra em terras alemãs... Minhas reflexões sobre ser afroconsciência porém não são coisas de uma semana... Elas fazem parte de meu dia a dia. Ao contrário de minha juventude, quando volta e meia eu ouvia "mas você não é preto/negro... Você é moreno!", aqui na Alemanha não tem meias palavras quando se trata de identificação étnica. Eu adoro ser enxergado, visto, tratado como afrodescendente, como preto. Sem maquiagens, sem mesticismos, sem teorias sobre "boa aparência" e sobretudo, sem morganfreemismos. (Sim, estou falando daquele excelente ator African American que propõe que se deixe de celebrar a consciência negra, que se esqueça que existem negros e brancos como solução para o racismo no mundo. Pra vocês verem que como cientista social ele é um excelente padeiro).

Na última vez que estive em Salvador eu passei novamente no Shopping Barra, e em outros shoppings com lojas pra grã-finos... A tal butique Chocolate já não existe há anos... Deve ter falido... Ou a dona muito provavelmente se mudou pra Miami. Mir ist wurst... O que vocês não imaginam é como me foi prazeroso ver funcionários pretos e pretas lindíssimos trabalhando nas lojas. Pretitude linda e afrocentrada. Eu sei que ainda é pouco. Mas não posso deixar de comparar com o nada de quando eu tinha dezoito anos, onde havia o estúpido consenso da doença de nos considerar doentes de pele.

Mas então vamos salvar o resto do mundo, vamos sair às ruas, levantar bandeiras, vamos desinfetar o outros desta doença de "ver doença na pele não-branca".... We are the world.... We are the children, we are the ones who make a brighter day sOHWAIT!!!!! Es tut mir Leid, mas não tem como salvar os pacientes terminais! Existem doentes sociais que estão em estado crônico sem possibilidade alguma de cura. Ainda mais sendo o racismo uma doença social com "predisposição genética".... 

Como é que é?

Desenhando: há séculos atrás, existia uma família branca e feliz que via a "pele escura" como defeito/sujeira/imperfeição/negatividade. Aí eles se amaram e procriaram... E seus filhos aprenderam pelas historinhas de seus pais e avós os mesmos conceitos sobre "pele escura". E eles se amaram e eles também procriaram... Um dia, o rei e a rainha perceberam que ao tempo em que se multiplicavam viam que manter esses conceitos sobre "pele escura" garantia o seu poder em todo o reino. Então eles declararam "pele escura" como uma doença fatal! Mas como a rainha era muito esperta ela disse: "não podemos abrir o jogo, senão esses "peles-escuras" vão se insurgir e nos tirar do poder... Vamos fazer de conta que tá tudo bem?" E todos os seus súditos regozijaram com a inteligência de seus soberanos... E desde então tentam viver felizes para sempre.

Eu acredito porém, que a realidade fora dos contos de fadas apresenta um futuro desanimador para o "rei e a rainha". É somente questão de tempo até os "genes" virarem recessivos de geração em geração até que em algum futuro próximo nasçam pessoas sãs e salvas... Até lá, todos os pacientes terminais já aussterben (dá uma googlada pra ver o significado 😉)

Mas vamos ser otimistas. Talvez para alguns valha realmente a pena um tratamento de choque. Eu, por exemplo, já salvei três vidas nestes meus 20 anos de internet. Mesmo convivendo involuntariamente com um ou dois "casos perdidos", uma estatística pra mim animadora, pois os "curados" têm potencial multiplicador de saúde social. 

"É, mas você não vive a realidade brasileira, você blá blá blá mimimimi whiskas..."

Talvez você tenha razão. A distância da realidade brasileira tentou anos a fio "qualificar" minha pele como doença, e por caridade judaico-cristã a chamavam de "pele morena"...

"Ohhh... Você não é doente não, só está com uma gripezinha...!" 😱

... talvez o afastamento deste ar pseudo-europeu que vocês na terrinha brasilis respiram tenha me curado.

A estrutura alemã me dá a única possibilidade de ser quem eu sou. E como eu amo ser preto... Logo minha vida aqui, em comparação com a no Brasil, está sendo sopinha no mel. 

Uma curiosidade pra concluir... Escrevi este texto um dia inteiro, e entre um ou outro parágrafo eu tive que ir dar uma aula de canto...  No caminho de volta pra casa, entrei no metrô, e notei que havia fiscais... (Diferente do Brasil, aqui não existem catracas. As máquinas que emitem tickets estão à disposição para o passageiro honesto comprar seus bilhetes. Acontece porém de vez ou outra aparecer um funcionário à paisana (ou não) para fazer a fiscalização. Como já disse uma vez numa outra crônica, a expressão alemã para "viajar sem bilhete" é "schwarz fahren".)

... Eis que hoje havia um funcionário da companhia de transportes com a pele "negra como a noite" controlando a validade dos bilhetes dos passageiros. De súbito pensei... 

"Wie geil ist das denn! Ein schwarz-wie-die-Nacht-Kontrolleur auf der Suche nach Schwarzfahrern! (Que irado!!! Um fiscal preto como a noite à procura de passageiros viajando no preto!)

... O rapaz era belo, parecia um príncipe africano. Ele chegou pra mim, me olhou e sorriu. Um olhar de saudável para saudável. Em um átimo de segundo nos identificamos por nossas peles sem doenças e nos vimos socialmente com saúde pra dar e vender. Sorri de volta, mostrei meu bilhete e continuei a observá-lo andando calma e elegantemente pelo corredor do metrô... Um príncipe, sem dúvida!

Cheguei em casa com uma sensação maravilhosa de pertencer a uma irmandade preta. Só nós, pretos e pretas com saúde, podemos saber o que significa encontrar um/a outro/a preto/a que nunca vimos e nos sentir num ilê. Estejamos em qual país for... Nos conecta a certeza de que nossas histórias pessoais não são diferentes. A consciência de que somos sadios de pele é o que nos une.

Doença de pele... Aham... Nenhum olhar doente racista vai conseguir tirar a saúde de nossas peles!

Eu já chamei o SAMU pra irmã que usa maquiagem em tom mais claro por pensar estar com doença de pele... Acredito que ela estará se convalescendo em breve... Mas é pra nós, afrocentrados, irmãos e irmãs de peles sadias e ululantemente pretas, sem maquiagens, sem mentiras históricas, óbvias nas realezas de nossas ancestralidades africanas que eu dedico essa crônica de 20 de novembro. 


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