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27 de novembro de 2014

Fazer faculdade na Alemanha é de graça

Recentemente saiu a grande notícia. O último estado alemão que ainda cobrava taxas (Baixa-Saxônia) para estudar em suas universidades públicas aboliu a famosa Studiengebühr (taxa de estudo) que trouxe muitas controvérsias durantes os últimos anos. De fato, as universidades alemãs precisam de dinheiro e estavam (estão!!!!) tendo dificuldades para se manterem apenas com os recursos dados pelos governos e iniciativas privadas (não é só no Brasil o problema com os investimentos em educação). Alguns anos atrás muitos estados começaram a exigir que os alunos pagassem uma taxa de 500 Euros por semestre, que seria usada para suprir diversos gastos extras para melhoria da universidade (cada estado fez o seu próprio plano de como iria usar o dinheiro arrecadado). Houve muitos protestos, muitos estudantes preocupados em saber de onde tirar esses 500 Euros semestrais. Bem, as universidades da Baixa-Saxônia (a partir deste semestre) e da Baviera (desde o ano passado) foram as últimas a abolirem essa cobrança.

Mas será que estudar na Alemanha é totalmente gratuito?
Universidade de Colônia
Infelizmente não. Mesmo sem as taxas de 500 Euros, há outras taxas que os estudantes têm que desembolsar semestralmente. É o chamado Semesterbeitrag (contribuição semestral). Essa "contribuição" é obrigatória e serve para pagar custos com o DCE (que em alemão se chama AStA) e outros custos de administração. Em muitas universidades serve também para pagar o ticket semestral de transporte. Esse valor varia de universidade para universidade (pode ficar entre 75 Euros e 278 Euros, dependendo da universidade). Lembrando que esse valor é cobrado por semestre e não por mês. (A meu ver é uma taxa justa, especialmente a do Semesterticket que dá direito ao estudante usar praticamente todos os transportes públicos de uma determinada cidade ou região por 6 meses).
Além disso, alguns estados decidiram cobrar a Studiengebühr (a mesma que foi abolida!) de estudantes que demoram muita para se formar. Ou seja, se o tempo normal de estudo for 3 anos, já se passaram 6 anos e você ainda não se formou, em alguns estados é possível que você tenha que pagar taxas. É um recadinho: "Ei, querido(a), tudo bem que a universidade é pública, mas não exagere".

Ah, então isso é uma pegadinha, né? Achei que fosse totalmente gratuito!
Nada nessa vida é de graça, amiguinh@. Mas pense pelo lado positivo. Nos EUA, por exemplo, o ensino superior é caríssimo. Se você vier de outro país, mais ainda. Você teria que desembolsar uns $20.000 dólares por ano. Existem países na Europa (por exemplo, a Dinamarca) onde somente cidadãos da União Europeia podem estudar gratuitamente. Quem for de fora PAGA e paga caro. Se você olhar o preço das mensalidades de universidades particulares no Brasil, verá também que os 278 Euros por semestre não são nada. Então estudar na Alemanha pagando apenas uma taxa semestral (na qual também está incluído o seu ticket semestral de transporte) é praticamente de graça. 

O que fazer para estudar na Alemanha?
Depende de tantas e tantas coisas.
Antes de qualquer coisa, informe-se sobre os cursos e universidades existentes, bem como sobre os prazos. O ideal é consultar o site UniAssist. É um site com muitas informações (em alemão e inglês) sobre o processo de seleção para uma universidade.
Pessoalmente eu também gosto muito do sistema de busca da página do DAAD. Lá você pode procurar por várias opções: tipo de curso, área de estudo, tipo de universidade etc. Dá uma olhadinha aqui.

Depois de achar as informações sobre os prazos de inscrição e requisitos, mãos à obra pra juntar a papelada. As universidades aqui normalmente não pedem nenhum tipo de visto no processo de inscrição. O visto de estudante você só consegue depois de já ter sido aceito na universidade, pois é essa confirmação de vaga que vai te dar direito ao visto.

Eu só tenho o Ensino Médio completo. Dá pra fazer faculdade na Alemanha?
Normalmente o Ensino Médio não é suficiente, pois na Alemanha é exigido que os alunos tenham concluído o Abitur (que é uma espécie de Ensino Médio alemão preparatório para a universidade). Como a escola na Alemanha demora 1-2 anos a mais que no Brasil (dependendo do estado), é exigido que os estudantes estrangeiros com Ensino Médio façam um ano de escola preparatória (Studienkolleg) para a faculdade ou façam 4 semestres de faculdade no Brasil antes de tentar transferir pra uma universidade alemã. Geralmente eles analisam caso a caso.

Tem Vestibular?
Não. O processo de seleção é feito através de candidaturas, como você estivesse buscando um emprego. Cada curso lança seu calendário de seleção e publica a lista de documentos exigidos. Você envia a documentação exigida junto com a uma carta explicando seus motivos para se candidatar a essa vaga. Depois é só esperar uma resposta. Às vezes você pode ser convidado para uma entrevista antes de ser aceito pela universidade. Ou seja, as notas da escola e/ou da faculdade contam também na obtenção de uma vaga.

Precisa saber alemão?
O tanto de alemão necessário para estudar numa faculdade alemã vai depender de cada curso e de cada universidade. Não há uma resposta que valha para todos os casos. O ideal é você ler os requisitos no UniAssist ou no site de busca do DAAD. Para cada curso há uma lista de exigências. Alguns cursos exigem inglês e alemão. Há cursos completamente ministrados em inglês. Outros cursos podem ser completamente em alemão.

Os testes de proficiência geralmente aceitos para comprovar o alemão são o TestDaF, o DSH ou outros certificados de nível C1 ou C2. A nota exigida varia de acordo com cada curso. Cursos na área de Humanas, Direito etc. podem exigir melhores notas (já que requerem muita leitura). Cursos nas áreas técnicas podem aceitar estudantes com notas mais baixas nesses testes de alemão e exigir notas melhores de inglês. Para fazer Letras ou Tradução podem ser exigido comprovar outras línguas estrangeiras. Em alguns doutorados na área de Humanas podem ser exigidos conhecimentos de Latim. Como disse antes: quem define isso é a própria universidade. É só ler os requisitos.

Conseguir o visto de estudante é difícil para brasileiros?
Não. Diferente de outros países (como os EUA, por exemplo), onde mesmo depois de comprovar tudo o seu visto pode ainda ser negado, a Alemanha não costuma negar vistos de estudante caso toda a papelada exigida esteja adequada. As coisas principais são: um comprovante de que você poderá se manter durante os estudos sem trabalhar (isso pode ser comprovado através de uma declaração de bolsa de estudos ou através de dinheiro em conta no banco, por exemplo), seguro-saúde, comprovante de matrícula (ou de aceitação) na faculdade e comprovante de moradia. Outros documentos da lista podem variar, mas estes são os principais. A ideia é simples: se você tem como se manter, tem onde morar, tem um seguro de saúde e tem uma vaga na universidade, não há nenhum motivo para te impedir de estudar na Alemanha. O visto de estudante dá direito a 120 dias de trabalho por ano ou 240 dias se o trabalho for de meio-período. Durante o período de aulas, o estudante não deve trabalhar mais do que 20 horas por semana para não comprometer os estudos.

Se o seu problema for conseguir uma bolsa de estudos, fique atento ao blog. Nós sempre divulgamos editais de bolsa de estudo, seja pelo CsF como por outras organizações. Para saber sobre as bolsas de estudos que divulgamos, clique aqui.

Onde posso me informar mais?
O DAAD organiza muitas palestras no Brasil sobre o que fazer para estudar na Alemanha.
Haverá alguns eventos informativos nos próximos dias sobre doutorado (28,29 e 30 de novembro). (Informações: clique aqui)

25 de novembro de 2014

Palavras compostas curiosas da língua alemã

Alemão é uma língua cheia de peculiaridades na formação do seu vocabulário. Uma de suas características é poder juntar palavras para formar outras. Algumas junções são mais óbvias, outras menos.  Aqui vão alguns exemplos:

sapato para as mãos??!?!
1) Handschuhe = Luvas
Hand (mão) + Schuhe (sapatos) = ao pé da letra "sapatos para a mão".

2) Baumwolle = Algodão
Baum (árvore) + Wolle (lã) = ao pé da letra "lã da árvore"

3) Flugzeug = Avião
Flug (voo) + Zeug (coisa) = ao pé da letra "coisa que voa"

4) Feuerzeug = Isqueiro
Feuer (fogo) + Zeug (coisa) = ao pé da letra "coisa (que dá) fogo"

5) Schlüsselloch = buraco da fechadura
Schlüssel (chave) + Loch (buraco) = ao pé da letra "buraco para a chave". A fechadura se chama Schloss. Mas o buraco da fechadura, é chamado de buraco para a chave.

6) Schadenfreude 
Schaden (prejuízo, dano) + Freude (alegria) = é a alegria pela desgraça alheia. Parece uma palavra péssima, mas todo mundo já sentiu Schadenfreude alguma vez. Por exemplo, quando você ri do tombo de alguém, isso é Schadenfreude. Quando você fica feliz em ver uma pessoa de quem você não gosta (um político, por exemplo) se dando mal, isso é Schadenfreude.

7) Eifersucht = ciúme
Eifer (zelo) + Sucht (vício) = ao pé da letra, vício em zelo. O ciumento é o eifersüchtig. O legal é que em outras línguas o ciúme tem a ver com zelo. Em espanhol, ciumento é celoso. E em inglês é jealous (se você trocar o j por z, perceberá que a raiz é a mesma).

8) Kaltmiete / Warmmiete
kalt (frio) + Miete (aluguel) = ao pé da letra "aluguel frio". É o valor do aluguel, sem nenhum acréscimo dos custos extras de moradia.
warm (quente) + Miete (alguel) = ao pé da letra "aluguel quente". É o valor do aluguel acrescido do valor do condomínio (geralmente água e aquecimento).

9) Fahrstuhl = elevador
fahren (ir, conduzir, dirigir) + Stuhl (cadeira) = ao pé da letra "cadeira condutora", ou seja, um cadeira que te leva a algum lugar. Mas o elevador não é bem uma cadeira, né? Existem também outras palavras para elevador: Aufzug (que vem de aufziehen - içar) e Lift (que vem do inglês).

Curiosidade: a palavra bicicleta em alemão é feita com o mesmo radical "fahr(en) + Rad" - Fahrrad - a "roda condutora".

10) Feierabend = fim do expediente
feiern (festejar) + Abend (noite) = ao pé da letra, noite de festa, noite comemorativa. Muita gente erra ao traduzir a palavra como happy hour. A palavra Feierabend não quer dizer que a pessoa vá beber com amigos, nem precisa ser à noite. Mesmo que seu expediente termine às 14:00 e que você vá direto para casa, você também pode usar a palavra. Ela quer dizer realmente "fim do expediente". Nada impede que você saia com seus amigos para um Happy Hour depois do trabalho.

11) Augenblick = momento, instante
Auge (olho) + n (consoante de ligação) + Blick (vista, olhar) = ao pé da letra seria algo como "a vista ocular", ou simplesmente, o olhar ou a olhada, a olhadela. Isso me lembra muito a expressão portuguesa "num piscar de olhos", ou seja, algo que vai ser feito rapidamente, num instante, num momento. Quando em português se diz "Um momento, por favor", em alemão se diz "Einen Augenblick, bitte" o que sempre me fez lembrar do "piscar de olhos" do português. Um sinônimo é a palavra Moment.

12) Luftschlange = serpentina
Luft (ar) + Schlange (cobra) = ao pé da letra "cobra de ar".

13) Glühbirne = lâmpada
glühen (arder, estar em brasa) + Birne (pêra) = ao pé da letra, "pêra ardente", ou melhor "incandescente". São aquelas lâmpadas que tradicionalmente têm um formato de pêra.

E você se lembra de mais exemplos interessantes?

20 de novembro de 2014

Vida na Alemanha - Racismo na Alemanha

Para começar, aqui vão dois vídeos de um negro alemão onde ele relata perguntas idiotas que ele tem que ouvir:




Hoje é dia 20 de novembro. Dia da Consciência Negra. Um dia que tenta dar ao negro a consciência de sua negritude, a consciência do que a cor de pele representa atual e historicamente. Eu não sou negro. Não me identifico como negro, apesar de saber que, como brasileiro, deve haver muito sangue e muitos genes de origem africana em mim. Eu nasci com aquela cor de pele típica do brasileiro mestiço: nem tão branca, nem tão negra. Olhos e cabelos castanhos. O famoso "pardo" das estatísticas do IBGE. Eu tenho consciência de que não sou branco. E consciência de que não sou negro.

Por estar na parte do meio dos inúmeros tons de pele existentes, eu nunca passei pelas mesmas situações de racismo no Brasil que meus irmãos negros. Nem ganhei os privilégios de ter nascido branco numa família de classe média. Como nunca havia sofrido racismo, eu era mais um a não demonstrar nenhuma empatia pelo sofrimento do negro. Afinal, ninguém nunca havia me julgado pela minha cor de pele. Nunca.

Aí eu vim para a Alemanha. Sim, aquele país marcado eternamente por ter começado uma Guerra Mundial com uma política racista. O mais curioso é que a Alemanha foi destruída por um país que também tinha uma política racial segregacionista. Mas parece que ninguém vai pros EUA se perguntando sobre racismo. Mas todo mundo parece ter medo de encontrar alemães defendendo os ideais do seu ditador do passado.

A primeira vez que eu ganhei consciência de que a minha aparência chamava a atenção foi ao morar aqui. Foi na Alemanha a primeira vez que ouvi na vida: Você tem olhos bonitos! Essa frase, já ouvida várias vezes da boca de alemães, me deu consciência de que olhos castanhos podem ser bonitos. Numa terra em que boa parte da população tem olhos claros, ter olhos escuros é o diferencial. Eu tive a certeza de que jamais ouviria isso no Brasil, um país acostumado a idolatrar artistas brancos de olhos claros. Isso me deu consciência.

Numa outra ocasião ouvi de uma colega, alemã, branca "Nossa como eu queria ter a sua cor de pele". Respondi, atônito, "Sério? Por quê?". "Porque queria poder tomar sol, me bronzear, quando vou à praia fico vermelha, vocês se bronzeiam. É mais bonito". Essas e outras experiências me deram consciência de que em terras germânicas eu não passo despercebido como no Brasil. Aqui eu sou considerado "dunkelhäutig" (pele escura). E a minha pele chama a atenção.

Um dia aprendi que havia palavras tabu na Alemanha. Palavras que causam desconforto à maioria dos alemães. Todas elas são palavras que foram usadas e abusadas pela ditadura nazista. Uma delas é a palavra Rasse (raça). Hoje em dia a palavra Rasse só é usada quando se fala sobre o pedigree de animais, mas não mais sobre humanos. É claro que se pode dizer que uma pessoa é branca ou negra. O problema é chamar isso de "raça". Alemães não gostam desse termo. Também descobri que a palavra Neger, antigo termo para "negro" é considerado racista hoje em dia, preferindo-se o termo schwarz, ou até outros termos como Schwarzafrikaner, Schwarzafrikanerin, Afroamerikaner, Afroamerikanerin, Afrodeutscher, Afrodeutsche. O doce conhecido como Negerkuss (beijo do negro) passou a ser chamado de Schokokuss (beijo de chocolate). Imagine o que diriam os alemães se soubessem que no Brasil há um bolo de chocolate chamado "nega maluca".

Chances iguais?
Depois de fazer mestrado na Alemanha, acabei achando emprego numa universidade, ou seja, as pessoas com quem convivo diariamente são pessoas com um alto nível de educação. Meus alunos alemães se chocam um pouco quando sabem que o IBGE, um instituto nacional de estatística, ainda faz contagem de "raça" no Brasil. Ficam mais chocados quando aprendem os termos usados pelo IBGE "branco, pardo, negro, AMARELO(???), indígena". Mas não se enganem. Mais chocados ficam quando veem as estatísticas das diferenças de salário entre negros e brancos no Brasil. Mais chocados ficam quando vão ao Brasil e aprendem dos próprios brasileiros a se "protegerem" dos "negros" na rua, já que serão "ladrões" em potencial. Mais chocados ficam quando fazem um semestre de intercâmbio nas universidades públicas brasileiras e se perguntam: "Cadê os negros nesta universidade?". Sim, todos estes debates e comentários se repetem nas minhas aulas sobre o Brasil na universidade. Alguns vão pensar: Ah, vai dizer que na Alemanha não existe racismo? Mas minhas aulas não são sobre a Alemanha, e sim, sobre o Brasil. O importante, para mim, é levar os alunos a refletirem sobre as experiências que terão, que têm ou que tiveram no Brasil para que entendam melhor os processos históricos que levaram às diferenças raciais no Brasil.

Essa consciência eu não ganhei no Brasil. Eu ganhei aqui na Alemanha. Ganhei aqui pois aqui sou tratado diferente. Por ser tratado diferente, pude ganhar empatia pelas pessoas no Brasil que também são tratadas diferentemente. Já fui tratado de forma racista na Alemanha? Claro. Uma das formas mais comuns de racismo aqui é o racial profiling da polícia. Qualquer ladrão aqui é descrito como südländisch. E com südländisch eles já estão dizendo: deve ter vindo de algum país do Sul. E do Sul pode ser desde a Itália, da Grécia, da Turquia quanto de qualquer outro país onde faça mais sol do que aqui, que deixe a pele num tom mais escuro do que aqui. Sim, já fui parado pela polícia a caminho do trabalho apenas por ser südländisch. Sim, já fui a única pessoa do vagão inteiro de um trem a ter que mostrar documentos e abrir mala para a polícia enquanto as pessoas do vagão olhavam para mim (sem fazer nada). Dá raiva? Dá. Estraga o seu dia e o seu humor? Estraga. Mas passa. Sabe por quê? Porque eu talvez passe por isso 1-2 vezes por ano. Enquanto nos outros 363-364 dias do ano eu sou tratado como gente, sou tratado como o rapaz dos olhos bonitos, o brasileiro que com certeza anda sempre alegre, fazendo festa, sambando ou sei lá o quê. Mas esses dois dias por ano em que algo assim acontece me deram a vaga consciência do que um negro passa no Brasil ao ser revistado ao sair de um loja sem ter roubado nada. Ao ter o seu caráter julgado pela sua cor de pele. É por isso que, quando sei de algum brasileiro revoltadíssimo por ter sido barrado na porta de uma discoteca alemã, penso nos inúmeros casos de negros brasileiros que são barrados, revistados, expulsos de locais brasileiros (shopping centers, lojas, boates etc.) sem que ninguém se revolte. E eu espero que esse brasileiro barrado na entrada da discoteca ganhe essa consciência. Espero. Por isso, precisamos "brigar por justiça e por respeito", como diz Seu Jorge. Estamos juntos!

"A carne mais barata do mercado é a carne negra" - (Seu Jorge)

Leia os outros textos sobre Consciência Negra:
1) http://www.aprenderalemao.com/2014/11/negro-brasileiro-na-alemanha-haut-por.html
2) http://www.aprenderalemao.com/2014/11/negra-brasileira-na-alemanha-irmaos-de.html

Negra, brasileira, na Alemanha: Irmãos de cor na Alemanha por Cris Oliveira

Irmãos de cor na Alemanha
Cris Oliveira

Quando decidi vir pra Alemanha há mais ou menos 12 anos a coisa que mais me preocupava era como eu enfrentaria o racismo. Tinha certeza que quando chegasse aqui iria ter de passar por situações desagradáveis, só não sabia como elas se manifestariam e como me defenderia. Mas estava decidida a vir. Meu futuro marido estava aqui e me garantia que não precisava ter medo, que existia muito racismo aqui sim, mas que a gente se adapta, se fortalece, luta contra e aprende a viver com isso. No final das contas o amor falou mais alto e acabei vindo com medo e tudo.

Logo que cheguei, talvez por causa da minha expectativa anterior, me surpreendi. Andava meio na defensiva, com medo dos ataques que poderiam vir de qualquer lugar inesperado, mas com o passar do tempo fui percebendo que as situações desagradáveis para as quais eu me preparava tanto nunca vinham. Pelo contrário, comecei a notar que muitos dos alemães que eu encontrava por aí sabiam muito mais do Brasil, sem nunca terem ido lá, do que eu sabia da Alemanha apesar de já estar vivendo aqui. Percebi também que muitos tinham um interesse genuíno pelo Brasil, sua história e sua gente. Comecei a relaxar e perceber que os monstros que eu esperava encontrar aqui não andavam assim espalhados por toda parte e que essa terra estava passando por um processo de mudança impressionante, se tornando cada vez mais internacional, aberta e tolerante. 

Comecei a ver reconhecidas certas características minhas que no Brasil ou passavam despercebidas ou eram logo menosprezadas mesmo, como meus olhos escuros, a cor de minha pele e principalmente meu cabelo. Nunca fui chegada a chapinha ou alisamentos simplesmente porque me irritava ser dependente de qualquer coisa no meu dia a dia. Meus cabelos sempre foram mais pro natural por questão de praticidade mesmo, mas confesso que de vez em quando cedia a pressões da família (“menina, que cabelo doido, vai dar um jeito nisso”; era uma das coisas que eu ouvia das superbem intencionadas mulheres da minha família) e acabava dando um relaxamentozinho aqui outro ali. Aqui na Alemanha aprendi a gostar genuinamente de minha imagem no espelho, inclusive do meu cabelo “doido” e eu serei pra sempre agradecida a esse país por isso. 

Depois de ouvir incontáveis elogios a gente acaba se convencendo de que não há nada de errado com a gente e isso é maravilhoso. É um grande alívio quando percebemos que podemos escolher mudar alguma coisa em nossa aparência, mas não nos sentirmos forçados a mudar nada por uma mera questão de aceitação. Esse é o ponto: assim que cheguei a Bremen, eu como negra, me senti aceita e isso foi fundamental pra minha história aqui neste país.

Infelizmente a fase do namorinho apaixonado um dia chega ao fim em qualquer relação e a minha com a Alemanha não podia ser diferente. Passado o primeiro momento de encantamento, comecei a perceber que aqui as experiências de negriture variam muito e nem sempre as de outros negros com os quais eu convivi aqui foram assim tão positivas quanto as minhas. Prestando mais atenção e conhecendo mais pessoas, acabei notando que o racismo aqui se manifesta de forma muito complexa e em muitos momentos ele fica até difícil de identificar por ser confundido com outras coisas. Ou seja acaba parecendo muito com o que acontece no Brasil.

Hoje em dia, com o olhar mais crítico de quem já passou da fase de encantamento com o novo país, percebo que quanto mais escura a cor da pele maior o racismo enfrentado. A origem também é um fator importante. Todo mundo ama um negro latino, mas esse amor nem sempre se estende pros africanos. O preconceito aqui se manifesta, pelo menos pra mim, mulher brasileira, negra de pele não tão escura, de forma bem cordial. Eu entro em um lugar e as pessoas já esperam que eu seja a atração da festa. Todos acham que eu só vivo feliz. Que sei cantar, dançar, que sinto frio o tempo todo, que venho do morro, que sou supersensual e só penso naquilo. 

Na verdade, não me incomodo quando alguém tem essa imagem de mim. Essas só são primeiras impressões que podem ser descontruídas quando se conhece alguém melhor. O que incomoda mesmo é perceber que elas só têm uma imagem, e que essa imagem é tão reduzida e rígida que acaba me limitando também. É um saco ter sempre que conversar sobre essas mesmas coisas aí, simplesmente porque muita gente não entende que existe mulher negra brasileira que não sabe dançar, que não entende nada de futebol, que não acha o frio tão horrível assim e que não está o tempo todo tentando seduzir alguém.

Eu tenho a sorte de conviver com pessoas de mente mais aberta e reflexiva. Já passei por umas situações esquisitas, mas foram poucas. Enquanto isso tem gente que tem de lidar todos os dias com coisas muito piores como com o fato de sempre serem tratados como estrangeiros apesar de terem nascido aqui, com os olhares insistentes que ou desconfiam ou tem uma curiosidade invasiva e com as oportunidades de emprego mais escassas todos os dias. Esse é o racismo nu e cru dispensando qualquer cordialidade.

No meio de tudo isso a gente acaba reconhecendo nossos iguais. Pessoas, que como a gente sofre com as mesmas coisas e por isso entendem exatamente porque agimos como agimos. Por isso não é raro que caminhando pelas ruas de Bremen de vez em quando se encontre outros negros e negras que do nada se cumprimentam. Quando isso aconteceu comigo pela primeira vez, respondi a saudação, mas achei estranho. Sendo soteropolitana, se eu sair por aí saudando cada negro igual a mim que encontrar na rua, vou passar o dia inteiro só dizendo “oi”. Até que um dia uma negra, até meio parecida comigo, passou por mim e me cumprimentou de uma forma que me fez entender tudo. Ela sorriu e disse “Hi, sister”. O que pra ela foi somente um cumprimento, pra mim significou muito mais. Queria dizer estamos aqui nesse país cheio de pessoas diversas, mas existe algo em mim e em você que nos separa de muitos deles ao mesmo tempo que nos conecta com muitos outros de lugares que eu e você nem podemos imaginar. Eu vejo você e você me vê, mas pra ser visto muitas vezes é preciso passar por muita coisa e viajar pra muito longe. Desde então toda vez que encontro um outro preto ou preta por aí, não hesito em sorrir e dizer “oi irmão/oi irmã” e pensar comigo mesma “estamos aí. Estamos aqui”.

Leia os outros textos sobre Consciência Negra:
1) http://www.aprenderalemao.com/2014/11/negro-brasileiro-na-alemanha-haut-por.html
2) http://www.aprenderalemao.com/2014/11/vida-na-alemanha-racismo-na-alemanha.html
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