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28 de fevereiro de 2012

Como vai a senhora, Dona Karen?

Inglês é uma língua bem simplificada. Uma das coisas que o inglês perdeu com o tempo foram as formas de tratamento diferenciadas. Ou seja, todos, desde o Presidente da República até o mendigo na rua são tratados pelo pronome "YOU".

Mas isso não é o caso da maioria dos idiomas ocidentais que ainda preservam essa diferenciação nos tratamentos. Em português, temos TU, VOCÊ e O SENHOR/A SENHORA no singular. Em alemão temos DU (que é mais informal, portanto equivaleria ao VOCÊ ou TU) e temos SIE (escrito sempre com inicial maiúscula, mais formal, que equivaleria, portanto ao O SENHOR/A SENHORA).

Cabe lembrar que há diferenças nos usos de TU e VOCÊ até mesmo entre as regiões brasileiras e países lusófonos. Mas eu mesmo não vou explicar aqui os usos do português, apenas mencioná-los para ilustrar melhor. Cada um veja qual pronome usa e compare com os do alemão. Você verá que há muitas diferenças nos usos.

Eu vou falar aqui em dois usos: FORMAL (tratar por "Sie") e INFORMAL (tratar por "du"). Não é importante saber se na sua região se usa "tu" ou "você". Compare o que você usa (independente de qual seja) com o os dois do alemão e faça suas próprias regrinhas.

Vamos aos usos e diferenças:

1 -Tratamento recíproco

A primeira grande diferença entre português e alemão é que o tratamento usado é sempre RECÍPROCO.  Ou seja, se alguém te trata por DU, você deve tratá-lo por DU. Se alguém te trata por SIE, você deve tratá-lo por SIE.
Em português, isso é diferente. O empregado chama o chefe de "o senhor/a senhora", enquanto o chefe o trata por "você, tu". O nosso tratamento quer demonstrar uma hierarquia (SUPERIOR -  INFERIOR; MAIS VELHO - MAIS JOVEM).
Em alemão o tratamento é sempre igual. Você trata o seu chefe de "SIE", e ele também te chama de "SIE". Você chama uma criança de "DU" e ela também te chama de "DU".

2 - Quem é tratado por "Sie"?

Todo mundo a partir dos 16 anos pode ser tratado por "Sie". Nas escolas alemãs há regras de que a partir de determinada idade (geralmente 16) os alunos já devem ser tratados por "Sie" (e os professores também, de forma sempre recíproca).

O objetivo do tratamento por SIE não é demonstrar hierarquia e sim, distância. Tratamos alguém por "Sie" toda vez que a pessoa com quem falamos não faz parte do nosso círculo de conhecidos nem tem nenhum vínculo afetivo e/ou sanguíneo conosco. Com o "Sie" demonstramos que o tratamento é estritamente profissional. É como dizer "Não quero me aproximar demais da sua vida particular, a gente está apenas tratando de assuntos profissionais".

Ou seja, você geralmente vai ser tratado por "SIE" em qualquer tipo de atendimento ao consumidor/cidadão, seja por e-mail, telefônico ou atendimento pessoal. Muitas vezes, um colega seu de trabalho vai continuar te tratando por "Sie" mesmo depois de muitos anos de trabalho. Um professor de faculdade muitas vezes vai continuar te tratando por "Sie" mesmo depois de você já ter feito várias disciplinas com ele e mesmo depois de ele ter sido seu orientador da tese de doutorado por diversos anos, com encontros frequentes. Enquanto o tratamento não sair do "Sie", a pessoa demonstra indiretamente que mantém o contato estritamente profissional, que quer manter uma certa distância (P.S. Não tem nada a ver com o fato de ela gostar de você ou não. Seu professor/chefe pode até amar o seu trabalho, mas ele te tratará para sempre por "Sie" se ele quiser deixar claro na forma de tratamento que o contato entre vocês é apenas profissional. Não levem pro lado pessoal). 

É mais ou menos com os atendentes de "telemarketing" que são treinados a chamar a pessoa de "senhor" ou "senhora", mesmo que a pessoa do outro lado da linha tenha 14 anos. O tratamento formal dá esse caráter profissional à conversa.

3 - Quem é tratado por "du"?

Ora, todos que não se encaixam na explicação acima. Ou seja:

a) todas as crianças e jovens até uns 16 anos.
b) todo mundo que tem um vínculo afetivo/sanguíneo com você: ou seja, seus amigos, familiares etc. Isso no Brasil é diferente. Na minha família nós fomos ensinados a tratar todos os mais velhos da família (inclusive os pais) por "o senhor/a senhora". Até hoje eu chamo minha mãe de "a senhora", enquanto ela me trata por "você/tu". Em alemão, o tratamento é sempre recíproco, ou seja, os avós, pais chamam os filhos/netos de "du" e vice-versa.
c) depois dos 16 anos o tratamento continua por "du" se ambas as pessoas forem jovens (não vou colocar uma idade máxima, mas geralmente em idade universitária) mesmo que sejam desconhecidos. Ou seja, os professores na escola tratam os alunos por "Sie" (e vice-versa), mas entre si os alunos se tratam por "du", mesmo desconhecidos.
d) todo mundo que oferecer a você esse tratamento. Num ambiente formal, é comum que uma das pessoas ofereça o tratamento por "DU", se assim ela desejar ou se sentir à vontade para tal. Há muitas empresas em que isso já é praxe. Isso varia de empresa pra empresa. No meu trabalho, por exemplo, quase todo mundo se trata por "du". Assim que eu cheguei, já na primeira semana, já fui tratado por "du". Lá só tratamos por "Sie" os funcionários de outros departamentos que não conhecemos.

O "Subway" trata todos os clientes por "du".
O conselho é: num tratamento profissional ou com desconhecidos adultos é sempre bom começar com "Sie" e esperar que ele/ela ofereça o "Du". (Wir können uns duzen, kein Problem!!) :-) Se você se sentir à vontade, ofereça você mesmo o tratamento por "Du". Mas avalie bem a situação antes de oferecer o tratamento.

Na linguagem publicitária, é bem comum hoje em dia o tratamento por "du", já que eles tentam se aproximar mais do público. Por exemplo, na rede de fast-food "Subway" tudo é escrito com "Du", já que é uma rede que atrai muitos jovens. Os funcionários também tratam os clientes quase sempre por "Du". Isso é uma exceção ainda em estabelecimentos comerciais, mas me parece que é uma tendência crescente (lenta, mas crescente!)


4 - Chamar pelo sobrenome ou pelo prenome?

No Brasil, é comum chamarmos a todos pelo prenome (primeiro nome). A empregada chama sua patroa de Dona Flávia, o funcionário chama seu chefe de Seu/Sr. Marcos. A presidente é Dilma ou até mesmo Dilma Rousseff, mas nunca só Rousseff.

Na Alemanha o normal entre adultos é tratar sempre pelo sobrenome no tratamento FORMAL. Ou seja, se seu nome for Katia dos Santos, na faculdade você não é Frau Katia, mas sim Frau dos Santos. Brasileiros geralmente têm muitos sobrenomes (pelo menos um da mãe e um do pai). Neste caso, é melhor escolher um pelo qual você quer ser chamado, para facilitar o trabalho dos alemães.

Hier werden Sie geduzt! = Aqui o sr. /a sra. é tratado(a) por "du".
Se seu nome for "Mirosvaldo dos Santos Cavalcanti", em cartas você será chamado de "Herr dos Santos Cavalcanti". Mas na faculdade, durante a aula, seus professores te chamarão apenas de "Herr dos Santos" ou de "Herr Cavalcanti"(ainda bem, né? Ninguém merece ser chamado de Mirosvaldo :-) Não há uma regra muito fixa. O melhor é dizer que sobrenome você prefere, ou eles geralmente te chamarão pelo primeiro sobrenome (geralmente o da mãe no Brasil) ou pelo mais fácil de pronunciar. Com os longos nomes brasileiros, é comum ver aquela cara de "Isso tudo é seu nome?" aqui na Alemanha. Então, dê uma força escolhendo apenas UM sobrenome pra ser chamado no dia-a-dia (ou ligue o "foda-se" e deixe-os lá se matando pra ler seu nome).

O fato de chamar pelo primeiro nome não influi no tratamento por SIE ou por DU. Meus professores da faculdade, com o tempo, passaram a me chamar pelo primeiro nome. Mesmo assim, continuaram me tratando por "Sie". Portanto, uma coisa não influencia a outra.

No tratamento informal, o mais comum é chamar todos pelo primeiro nome. No ambiente de trabalho, o melhor é observar como as pessoas se tratam antes de chamar as pessoas pelo primeiro nome.

5 - Em alemão existe um verbo para "tratar por DU" e um verbo para "tratar por SIE".

"duzen" = tratar por "du", tutear
"siezen" = tratar por "Sie" (cuidado para não confundir com "sitzen", que tem o "i" curto, enquanto "siezen" tem o "i" longo).

Wir können uns duzen. (A gente pode se tratar por "du").
Hier werden Sie gedutzt. (Aqui o sr./a sra. é tratado(a) por "du").

6 - Para terminar. Tudo o que eu falei sobre o DU, vale também para o IHR (vocês). Ou seja, ao falar para várias pessoas, se trata por "Sie" um grupo de pessoas formalmente, e por IHR um grupo de pessoas informalmente.
Em discursos para um público desconhecido, é mais comum usar o tratamento formal "Sie" ao se dirigir ao público.

########################
Divulguem o blog!

15 comentários:

  1. Adorei...
    Você explica muito bem e o blog é maravilhoso.
    Sucesso=*

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  2. Adorei este post (como sempre)! Fiquei me imaginando ao chegar na Alemanha, meu (único) sobrenome é GUIMARÃES, mas decerto estranhariam um til ali e leriam "gu-i-ma-ráes". *grins*
    Quanto ao tal do "Mirosvaldo" do exemplo, eu conheço algumas pessoas que só gostam de usar o nome do meio (minha mãe é uma delas). Mesmo se o dito nome do meio for um que conhecemos como prenome (como uma Ana Paula que preferisse ser chamada só de Paula), funciona como tratamento formal na Alemanha? (:

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    Respostas
    1. Paula nao é sobrenome (a nao ser que fosse 'di Paula'/'de Paula'), portanto é meio esquisito usá-lo como se fosse um.

      Como expliquei no tópico, usar o sobrenome ou primeiro nome nao influencia diretamente na escolha do Sie ou Du. (Ou seja, alguém pode me chamar de Fabio e mesmo assim me tratar por Sie). Mas ao usar os títulos Herr/Frau nao se deve usar apenas o(s) prenome(s). Ou seja, Frau Ana e Frau Paula (para alguém que se chama Ana Paula da Silva) vai estar errado. O certo seria Frau da Silva ou Frau Ana Paula da Silva.

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  3. "ou ligue o "foda-se" e deixe-os lá se matando pra ler seu nome" hahaha
    sensacional
    moro numa região onde têm muitos descendentes alemães com nomes que são praticamente palavrões, entao é praticamente a mesma coisa

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  4. Obrigada pelo post! Já comecei e recomecei meus estudos de alemão várias vezes (mudança de cidade, etc) e vi esse assunto em outras oportunidades, mas muita coisa aí é novidade para mim. Principalmente a questão do tratamento recíproco!

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  5. Leio o blog todos os dias, muito bom!
    Parabéns!
    P.S: o autor ainda mora em Köln?

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  6. Adorei a explicaçao!! Achei bem interessante!!

    Quanto ao meu caso, se eu ligasse o foda-se os coitados teriam mto problema.. eheheh.. 2 prenomes e 3 sobrenomes :x

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  7. Mas as crianças chamam os adultos de "Sie" enquanto são tratadas por "du" pelos mesmos, ou pelo menos era assim quando eu ia à escola alemã na Argentina. Então, nesse caso, não há reciprocidade!

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    1. Deve ser influência argentina nos tratamentos da escola, não? Nunca vi isso aqui... mas também nunca estive numa escola de crianças pra saber :-)

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  8. Eu simplismente adoreeei seu blog ! muito bem feito , vi todos seus videos , moro aqui na alemanha desde Janeiro e estou fazendo Curso já estou no A2 , aprendi muito aqui vendo seu blog , parabéns continue ! :DDD

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  9. Nao há essa regra rigida de reciprocidade, em ambiente familiar, vejo muito os mais velhos tratarem os mais novos por "du" e os mais novos tratarem os mais velhos por "sie".

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    Respostas
    1. Onde isso? Que região? Nunca ouvi isso. Qual o grau de parentesco entre essas pessoas que você viu?

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